Quando a ficha caiu.

Sou diabética”. Foi assim. Seco. No nosso primeiro encontro. Na hora eu não entendi direito o que ela quis dizer com isso. Ta certo que eu também não tinha muita noção da importância que essas palavras tinham. Afinal, ela é jovem, e diabetes só é grave se for em “velho e gordo”. Fora que nunca vi campanha na TV pedindo doações para as criancinhas carentes diabéticas. Então, qual o problema em ser diabética? Eu convivo muito bem sem doce.

A ignorância é algo realmente engraçado. Pode tanto soar como inocência quanto arrogância. Estes, por suas vezes, são inversamente proporcionais, ou seja, quanto mais inocência, menos arrogância, e vice e versa. Porém, pode-se ter os dois em um mesmo nível. A ignorância gera preconceito. Pode acontecer que, ao ler “doença de velho e gordo”, você crie um preconceito de mim sem antes entender o que eu estou querendo dizer, fazendo-o até ignorar as aspas. De fato,  “doença de velho e gordo” é um termo pejorativo e preconceituoso, mas, infelizmente, é um termo muito comum usado/pensado por muitas pessoas. E não nego. Eu me incluía nesse grupo. Não que isso signifique que não sou mais ignorante, afinal, todos são em um certo nível. Eu diria que, hoje, eu sou menos do que naquela época.

No instante em que aquelas palavras saíram da boca dela (tá bom, não foi na hora, um pouco depois) eu devo ter pensado, feliz e contente: “Ah, eu to ligado. Eu sei o que é esse negócio de diabetes. Tem a ver com açúcar.”. Gênio!! Hoje, quando relembro esse momento, chega a ser engraçado de tão embaraçoso. É como lembrar a primeira vez que vi um céu estrelado de interior, no interior de São Paulo, e achar que todas as estrelas do mundo estão sobre a minha cabeça. Ou ainda, descobrir que bolo de terra não tem um gosto muito agradável. Ta certo, eu posso ter sido uma criança meio tansa, mas era uma criança.

Depois de um tempo de convivência, hipos, hipers, pesquisas, etc, a ficha começou a cair. Eu comecei a perceber a importância daquelas palavras. E, ao mesmo tempo, comecei a me questionar: “Será que é isso o que eu quero? Será que dou conta do recado?”. É uma mistura de vários sentimentos, mas o que fica mais evidente é o medo. Medo de que? Medo de responsabilidade. Medo de problemas. Medo de não saber o que pode vir pela frente. Medo de não dar conta do recado. Medo de fazer merda. É um mundo totalmente novo. E para mim, na minha condição, é muito simples virar as costas e falar que não é problema meu. Não sou da família e meu único vínculo com ela era que estávamos namorando. Havia chegado em uma encruzilhada onde teria que tomar um rumo. O caminho fácil, o assustador, ou ainda, empurrar com a barriga esperando que o tempo de um jeito?

Acredite, não sou nenhum santo. Não vou ser hipócrita ao ponto de dizer que não cheguei a pensar na hipótese do caminho fácil. Eu refleti muito para saber o que eu realmente estava sentindo. Compaixão ou amor. Confesso que é complicado diferenciar, mesmo porque, eles se confundem muitas vezes. Foi então que um dia lembrei de uma frase que todo mundo fala e que, apesar de parecer um clichê, não deixa de ser verdade: “as pessoas só dão valor depois que elas perdem”. Foi então que achei minha resposta. O mesmo medo que me afastaria, me fez ficar.

É claro que minha decisão de ficar não implica necessariamente que continuaríamos o caminho juntos. Afinal, somos duas pessoas, e nosso caminho só continuaria se os dois quisessem. Sinceramente eu não sei o que ela viu em mim, mas, para minha felicidade, ainda estamos juntos.

Acredito que em uma relação, é importante cada um saber o porquê de querer estar com o outro. Ser sincero consigo mesmo pode evitar uma vida infeliz para ambos. E esse foi, acredito eu, o principal motivo da minha insegurança. Medo de uma vida infeliz. Medo de ter vivido um personagem que, na verdade, em vez de amor, sentia pena. Infelizmente é algo que pode ocorrer mesmo em uma situação diferente. Parece um tanto medíocre da minha parte ter embasado minha decisão em cima da diabetes. Mas a Elisa não merece alguém que a vê como “doente”. Ela merece alguém que a vê como parceira.

Provavelmente você deve estar se perguntando o motivo deu ter escrito este post. A minha intensão é justamente expor algo que eu procurei e não encontrei. Uma visão, ou experiência, onde eu pudesse me reconhecer. Onde, talvez, eu pudesse me guiar. A maioria das visões que encontrei eram, ou de portadores, ou de profissionais. Me sentia um estranho no ninho por causa disso. Por isso, me animei com a idéia de escrever um blog em conjunto com a Elisa. Seria um excelente meio de troca de experiências e conhecimentos e, consequentemente, uma forma de transmitir informação de um jeito mais amigável sem afugentar as pessoas. Afinal, ninguém é obrigado a ver o iceberg inteiro de uma vez e ter uma overdose de informação. Espero que, não só este relato mas os próximos que virão, ajude as pessoas a refletirem.

Anúncios

13 pensamentos sobre “Quando a ficha caiu.

  1. É por aí, mesmo. Na minha idade ainda aprendo muita coisa com meus aluninhos de 9 anos !…
    Bjs pra vocês

    • Mãe é mãe… posso comer bolo de terra que ainda vai achar que sou um gênio… hehehe… Brigado mãe!! Procuro sempre fazer jus a educação que tive.

  2. Mto legal Luis!! Nossa vida é cheia de decisões desse tipo, mas poucos param pra pensar no que realmente estão decidindo e quais são as consequencias dessas decisões, qdo decidimos ficar com uma pessoa, abrimos mão de muitas outras oportunidades e tb abrimos as portas para infinitas outras. Eu conheci a Elisa pré-Luis, e vou dizer, não deve ser mérito só teu, mas a pós-Luis é mto “melhor”, ela se ama muuuuito mais! E esse blog já é um resultado disso!
    Mto lindo vcs!! Parabens aos dois! E q continuem assim cada dia mais cumplices e apaixonados. Deus os abençoe sempre!
    Abs

  3. muito interessante a postagem, e muito franca.. quem dera todos os qu nos rodeiam fossem francos assim, falassem com respeito mas com sinceridade (pq ultimamente vc falar a verdade, significa ser grosso, fazer barraco, etc.. como vêmos no BBB e em outros programas…)o que pensam e o que sentem… meu marido, que além de ser um homem abençoado por Deus e guiado por Ele, teve tbm o dom do amor… e como é fácil amarmos o que é certo e o que nos traz conforto… Mas o amor que Deus fala e que vemos nos evangelhos de Mateus a João, é um amor de compaixão… acima de tudo!!! Meu marido tbm passou por uma questão parecida, continuar a vida dele ou lutar junto comigo pela minha vida?? logo eu… com reumatismo crônico no sangue, asma (no penúltimo estágio mais grave) e 2 nódulos (aparentemente até agora inocentes) na mama… creio que Deus levanta homens de coração com o amor dEle para nos ajudar, nos amar e lutar conosco… o que somos? Abençoadas por ter presentes de Deus assim!

  4. Preciso dizer: presente de Deus na minha vida mesmo! É muito bom ter alguém que como o Luís na minha vida, não para me “carregar”, mas para dividir a vida, os problemas e os sonhos! Amo muito! E que venha o casamento! 🙂

  5. Que lindo! Amei! Desde que fiquei diabética (há três anos), comecei a perceber que alguns homens se assustam com a “coisa”. Mas eu entendo e não os culpo por isso. Há 5 anos conheci um rapaz super legal e diabético. Cada coisa que eu ouvi das pessoas. Verdadeiros absurdos. Um preconceito desgraçado! Cheguei a pensar que ele estava morrendo. Mas a verdade era outra, ele era e ainda é exatamente como eu sou hoje, dependente de insulina. No entando, uma pessoa com uma saúde perfeita. Super animado, positivo e amável. As intempéries da vida nos separaram, mas ainda penso nele com muito carinho.
    Meu medo é que se eu chegar a conhecer alguém, este alguém acabe por se afastar de mim por causa da Diabetes, porque estou bem ciente dos riscos e complicações.
    Fico muito ansiosa quando penso nisso, por isso procuro nem pensar. Rsss
    Olha, achei muito legal o seu texto. Belas palavras!
    Um abraço,

    • Karin… me toca seu comentário, sempre tive este medo de “não encontrar” alguém que me aceitasse e me amasse, com esta limitação, mas com certeza, Deus sempre coloca pessoas assim, como o Luís no mundo. Prova de amor e dedicação. Desejo mesmo que encontres alguém assim, especial! Obrigada pelo comentário, volte sempre!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s