Diabético por tabela.

Parece meio estranho e simplório demais falar que sou um diabético por tabela. Algumas pessoas podem até se sentir insultadas (para essas pessoas, peço minhas sinceras desculpas). “Como você pode achar que é um diabético se não sente na pele??”. Realmente, não sinto na pele. Não posso nem imaginar como deve ser difícil para alguém aceitar essa condição, assim como qualquer outra. Não quero me colocar em uma posição de superioridade e tão pouco de piedade. Não estou aqui para dizer o que fazer para se sentir melhor, simplesmente porque não tenho propriedade alguma para isso e muito menos a intenção. Só posso dizer que cada um precisa achar seus próprios motivos. E isso não serve apenas à diabéticos, mas sim a todos. Cada um que queira se aceitar, deve fazê-lo por conta própria.

Quando conheci a Elisa, ela ainda não havia aceitado plenamente sua condição. Eu, em minha ingenuidade (ou arrogância, como achar melhor), achei que poderia tomar as rédeas da situação e mostrar à ela o caminho. Santa ignorância, batman!! Na época, eu ficava no pé dela, igual um agiota atrás de um devedor. Cobrava medições periódicas, controlava o que ela comia, etc. Um chato de galocha que achava que, com isso, ela teria sua diabetes controlada. Queria ser o super-herói salvador da pátria. Quanta arrogância (ou ingenuidade, como achar melhor)!!. Só percebi o mal que estava fazendo depois que ela desabafou comigo: “Poxa! Meus dedos doem! Me dá uma trégua, por favor!¹. Me senti o pior dos tiranos. Aquilo bateu tão forte que me deu vontade de enfiar o rabo entre as pernas e fugir feito um covarde. Sinceramente eu mereci a paulada! Isso fez com que eu começasse a abrir meus olhos e percebesse que não a estava ajudando. Ela não precisava de alguém que cuidasse dela. Ela precisava de alguém que desse apoio e entendesse o quão difícil estava sendo.

Com o tempo, percebi que, antes de mais nada, ela teria que se aceitar por conta própria. E, quanto a isso, eu não poderia fazer nada a não ser lhe dar apoio. Seria muito mais fácil se eu entendesse, mas como? Eu não tinha e não tenho propriedade para entender. Só o que tenho é o que ela transparece. Por causa disso, parei de tentar entender. Não iria resolver nada, já que, mesmo que eu tivesse todo o entendimento do universo, eu não era ela. Cabia à ela, e somente à ela, se aceitar ou não.

Hoje, ela aceita sua condição. Não por minha causa, mas por mérito próprio. A única coisa que fiz foi respeitar o tempo dela. Tenho toda certeza que esse dia chegaria, com ou sem a minha ajuda e, claro, sem a “mula sem alça” atrapalhando. Mas para não me sentir um inútil eu procurei ajudar de uma outra forma. Uma forma que, segundo a Elisa, a ajudou no processo de aceitação.

Pelo o que eu sentia da Elisa, um dos obstáculos da sua aceitação foi que ela não se sentia parte da sociedade. Se sentia a estranha que não podia comer açúcar. Por causa disso, achei importante eu mudar meus hábitos alimentares. Procurei ingerir somente aquilo que ela podia. Não com a intenção de servir de exemplo, mas sim como uma demonstração de apoio e mostrar que estávamos juntos no mesmo barco. Acredito que esse tipo de apoio seja importante para alguém com algum tipo de restrição. Não pelo lado sádico (“hahá!! Vai sofrer junto!! Vai ver o que é bom pra tosse!!”), mas sim pela questão de compreensão. Sentir que existe um compartilhamento e, de certa forma, um certo entendimento da dificuldade que é. Acredito que mesmo a menor demonstração de apoio seja importante.Mas isso não me faz chegar nem perto de sentir o que é, realmente, ter diabetes. Mais do que isso, só se eu me furar todo santo dia. Não que eu não quisesse, mas sou muito frouxo pra isso. Fora que não é essa demonstração de apoio que ela deseja.

Se eu falar que esse ato é puramente incondicional eu estarei mentindo. No fundo, também serve para mim. Me faz sentir útil. Me faz sentir o mais próximo possível dela. Por isso, me sinto um diabético por tabela. Deixei de ser um carrasco e passei a ser um parceiro.

¹Na época, ela utilizava o medidor glicêmico ACCU-CHECK Active. Sua tira, precisa de uma gota um tanto grande de sangue e, por causa disso, precisava de um furo mais profundo no dedo. Hoje, trocamos para o Optium Xceed. Ele precisa de uma quantidade bem menor de sangue.
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6 pensamentos sobre “Diabético por tabela.

  1. Amei o texto, o que tvz não seja mais novidade, porque a cada nova postagem que acompanho, me encanto mais, pela parceria, pelo companheirismo, pelo amor!!! Adorei a postagem da academia, vamos ver se me motivo e paro de dizer que mês que vem eu começo… rsrsrsrs

  2. Essa semana escrevio um texto que fala exatamente de alimentação, eu tambem sou “diabetica por tabela”, meu filho tem 8 anos, eu acho mais bonito dizer “co-diabetica”.
    A maneira do diabetico se alimentar é a correta, errados estão todos os outros.
    Cada vez que meu filho reclama, tenha certeza doi mais em mim, se pudesse trocaria de lugar com ele, mas as coisas são como são, mas no quesito controle, sou rigida como o tratamento exige.
    Só o fato de você estar ao lado dela, apoiando no tratamento, tenho certeza de que ela deve estar muito feliz.

    • Realmente, “co-diabetico” fica mais bonito. Imagino que, com criança, independente dela ter diabetes, seja mesmo necessário ter um controle rígido. Mas com uma restrição como a diabetes, deve ser bem difícil e dolorido ser rígido. Obrigado pela visita!! Volte sempre!

  3. Agorinha a pouco navegando por ai achei o blog de vcs ,no blog rool de Nicole ,ainda nao li tudo ,na verdade dei uma olhadinha ,mais quero ler ,estou indo pro trabalho agora ,achei algumas coisas em comum entre nos ,sou casada ,morro no Japao a sete anos e a dois e meio sou diabetica tipo 1 ,um dia se tivermos uma menina vai se chamar ELIZA ( com Z pela pronuncia aqui do japao) ,tb tenho um blog desde o ano passado .
    vou voltar depois pra ler tudinho .
    bjim

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