Atravessando o deserto, dia-a-dia.

Na semana que passou, tive alguns episódios  com a glicemia. Já havia pensado em escrever sobre isso quando os bons momentos me deixaram surpresa,  e os maus momentos me deixaram apreensiva. Os exercícios tem me feito ficar com a glicemia mais baixa, o que é muito bom, pois pude inclusive (sob supervisão da médica) diminuir em 4 unidades a insulina basal. Fiquei feliz por isso, e tenho notado que exercitar meu corpo, me deixa muito mais disposta, muito mais feliz, me permito até, comer algumas coisinhas que antes eram mais controladas.

Não é fácil controlar o diabetes, apesar de todo o esforço que faço( e creio que todo diabético faz também). É uma luta diária, uma luta que cansa muitas vezes, um estar atenta sempre, um estar em cuidado constante.

Na quinta-feira acordei, tomei meu café e fui na academia. Voltei para casa, tomei meu banho e fui trabalhar, até então, tudo normal. Sai do trabalho e fui almoçar, fiz a medição da glicemia antes de começar a comer 78 ( achei bom, visto que antes das refeições minha glicemia ficava em torno de 110). Resolvi não injetar a insulina de ação rápida, comecei a comer, uns 10 minutos depois, senti-me mal, medi a glicemia e estava em 48. Taquicardia, suor , tremedeira, cabeça confusa, mal estar geral! Tudo isso em meio a uma praça de alimentação de um shopping cheio de gente. Luís saiu correndo para pegar um sorvete. Comi, depois de um tempo, estava com a glicemia em 80.  Tudo passou, mas fiquei me sentindo estranha o dia todo.  Neste mesmo dia, mais tarde a glicemia estava em 325... (obviamente pelo doce da hipoglicemia).

É chato, cansa, me deixa triste esta luta de estar sempre medindo glicemia, sempre atenta às sensações que tenho, sempre em estado de alerta, além de gastar uma grana gigante com fitinhas, insulina , enfim ( nunca consegui que o governo me desse, estou em processo novamente para conseguir, torçam por mim). Muitas são as vezes em que penso como seria melhor não ter nada, conviver normalmente com minha saúde, sem tanta atenção, sem tanta preocupação.  Sim, tenho uma vida normal, me divirto, enfim… não estou aqui lamuriando por não me “sentir normal”, mas creio que somente quem tem alguma impossibilidade sabe  exatamente o que neste momento estou sentindo.

Lembro do dia em que conheci o Luís, saímos para jantar, conversamos e eu logo disse para ele: Sou diabética! O medo era tão grande de que não fosse conseguir ter alguém que me olhasse como sou e me aceitasse, com esta minha limitação, que logo no primeiro momento, já o avisei de minha situação de saúde, pensando que, era melhor que ele fugisse logo, do que deixar ele na ignorância sobre algo que afeta meu dia-a-dia. Para minha surpresa a resposta dele foi:  Sim, e daí?! ( claro que ele não sabia muito bem todas as implicações de eu ser diabética).

Hoje, posso dizer com certeza que ele sabe bem das implicações da “doença”, inclusive financeiras, e tem estado ao meu lado e me amado assim como sou. Isto é uma grande benção, sim eu sei, mas de qualquer forma, os medos continuam… “como será no dia do casamento?” , “ Como será que minha glicemia irá se comportar com tamanha emoção de entrar na igreja?” , “será que ficarei Hipoglicemica no momento da cerimônia?”, “ e quando engravidar?”

Muitos medos, muitos receios… uma briga diária com minha cabeça que não pára de pensar, que não pára de se questionar. Ao mesmo tempo que sonho em ser mãe, tenho muito medo do que possa acontecer, medo de não dar conta do recado, medo de não conseguir levar a gestação até o final, medo, muito medo.

Sei que você que me lê está pensando: “ Calma, uma coisa de cada vez, não podemos antecipar o futuro, viver no aqui-agora, etc. “  E digo: Sei de tudo isso, sei que não posso me abater, sei que vou dar conta ( de todo este medo) sei disso tudo… porém, sentir  e viver isso tudo é muito mais difícil do que na teoria.

Nossa, mas você não é psicóloga? Sim, sou, mas acima de tudo, sou HUMANA, tenho medos como qualquer um, tenho problemas como qualquer um.

Admito que sou uma pessoa que tem gosto pela vida, que ama tudo que temos ao nosso redor, que agradece por cada pedaço de dia, por cada pessoa que existe, por cada coisa que tenho. Mas não sou só beleza e agradecimento, sou também alegria e tristeza , coragem e medo, esperança e desesperança, vontade e preguiça, inteligência e ignorância, bondade e maldade, amiga e inimiga… sou um todo, um todo que não pode ser visto só de um ângulo, assim como cada um de nós não pode ser visto apenas de uma parte.

Quando olhamos apenas de um lado, perdemos a beleza da totalidade, perdemos a chance de sermos completos, sendo únicos.  Lidar com o diabetes é apenas um lado de minha vida, uma lado de controle diário, de medições constantes, de picadas na barriga, no braço, nas pernas… um lado de cuidar do meu corpo, que apesar de ser bom por um lado, é desgastante por outro.

Não fico parada por causa disto, não deixo de me cuidar, não deixo de me exercitar ( aliás , faz um bem danado), mas hoje, me permita apenas desabafar, não para que fiques com pena de mim, mas para partilhar com aqueles que também tem seus medos  que muitas vezes o terreno é árido, e precisamos assumir sozinhos a responsabilidade de atravessá-lo, mas que este caminho pode ser doce e belo, quando permitimos que outros nos acompanhem, não para nos carregar, porque existem momentos que precisamos fazer por nós mesmos, mas para estarem ao nosso lado, nos ajudando a levantar quando cairmos. Porém para permitirmos que o outro nos acompanhe, precisamos aceitar nossa condição de simplesmente humanos, dar  o “braço a torcer” de que muitas vezes não é fácil, de que muitas vezes não damos conta sozinhos, e que precisamos do olhar e apoio do outro, nem que seja, para chorar junto conosco, ou para sorrir, quando este dia terminar e um novo nascer acontecer!

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7 pensamentos sobre “Atravessando o deserto, dia-a-dia.

  1. Acabo de ler seu texto, e achei muito interessante. Pesquiso o diabetes desde que o descobri. Em um clic no twitter acabei me deparando com seu blog. Gostei muito de sua historia de vida, quanto ao amor, filhos, frustações e etc, relacionados ao diabetes. Como você mesma disse: só quem passa por algum tipo de limitação é capaz de entender! Parábens!

  2. Lindo o post de hj, me sinto importante em partilhar mesmo que por leitura de momentos tão significativos da tua vida, ainda que sejam conturbados também. Me identifiquei mto com o que escreveste hj, pois muitas vzs me vejo na msm situação: cheia de medos e limitações, mas ainda assim buscando sempre ver as coisas pelo lado bom e superar os desafios a cada dia. E como vc disse, é mto especial ter ao nosso lado pessoas que nos sustentem, ajudem a crescer e dêem força nos momentos de medo e dificuldade, e eu agradeço a Deus por fazer parte da tua vida e poder estar por perto em alguns destes momentos, assim como ter vc na minha vida e tantas vzs poder contar ctg. Amo vc!

  3. Oi Eliza, Li teu desabafo e te entendi perfeitamente muito bem. Tenho minha mãe diabética e sei o tamanho da luta e do controle diário, que muitas vezes cansa mesmo. De mais ou menos um ano pra cá também estou nesta, não diabética, mas quase que exclusivamente cuidando de mim, devido às cirurgias que me submeti. Duas coisas Fazem a diferença. Primeiro: é saber que Deus se interessa por tudo que passamos e nos dá a força para enfrentarmos tudo e está sempre a nossa disposição quando o buscamos. Segundo é o apoio dos familiares, e eu tenho uma familia maravilhosa. No meu caso, vi como foi importante passar por isso para aprender a valorizar mais os que se importam com a gente.
    Um beijo e que Deu seja sempre generoso com suas bênção na tua vida.

  4. Elisa
    Lindo o teu blog, parabéns!!!
    Eu particularmente nunca convivi com a diabetes, mas vejo que realmente é um desafio muito grande conviver bem com essas restrições! Parabéns pela perseverança e pelo texto!
    Um abraço, Vivi

  5. Deve ser mto dificil conviver com isso mesmo, com certeza só quem passa que sabe…
    Amei o comentario do acklei, hahahaha

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