Escutatória, uma arte, um dom…

Neste final de semana, tive contato com um texto de Rubens Alves que fechou direitinho com aquilo que gostaria de escrever aqui, o SABER OUVIR.

Já parou para pensar que falamos mais do que ouvimos? Que quando alguém nos conta algo, já estamos pensando nas justificativas, nos contrapontos que podemos falar de volta? Não paramos para verdadeiramente ouvir o outro, não paramos para deixar fluir a fala e esta nos tocar. Mesmo quando estamos lendo algo, não paramos para analisar o que a pessoa que escreve nos quis dizer, nos quis fazer ouvir, vamos logo analisando, julgando.

Tenho a sensação de que muitas vezes as pessoas usam as outras como “grandes ouvidos” ( e me sinto assim em muitos momentos), e aí não falo de ouvido de terapeuta, falo de ser um grande ouvido nas relações de amizade, familiares, onde existe a necessidade sim, de uma via de mão dupla, onde ouvimos ( e aí verdadeiramente) e somos “escutados”.

Segue abaixo um texto que vale muito a pena ler, que vale refletir, que vale repensar. Espero que toque você de forma profunda e bela, assim como me tocou ( não da mesma forma, pois isso não é possível).

Depois me digam o “eco” que gerou em você, combinado?!


ESCUTATÓRIA
Rubem Alves

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.Todo mundo quer aprender a falar, ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil. Diz Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”.

Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro:“Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma”.

Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…
Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64.

Contou-me de sua experiência com os índios: reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio.(Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, […]. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas.). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.

Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou.

Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades. Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado”.

Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou”. Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.

O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou”. E assim vai a reunião.
Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos.

E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.

A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.

Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

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7 pensamentos sobre “Escutatória, uma arte, um dom…

  1. U-AU!! Perfeito. Não quero expressar [muito] minha opinião. Acabei de ouvir com os olhos e aprender (mentira: quero falar sim -> por isso escrever é tão bom. Você encontra o silêncio que precisa achar). Bj!

  2. ola passando rapidinho pra dar um oiiiiii!!!!
    olha eu tenho mania de ouvir ,bem mais que falar !!!!
    NAo tem aquela musica que diz
    QUEM FALA POUCO SACA TUDO
    SABER OUVIR E MAIS SABER
    sou adepta a essa filosofia !!!
    bjim

    • Nossa, me sinto honrada com a visita de vcs por aqui. Sejam sempre Bem – vindos. A Farmamellitus tem sido o lugar onde eu “invisto” meu dinheiro, rsrsrs, e tem valido muito a pena pela forma como as pessoas nos tratam lah! Volte sempre…obrigadão pelo Link 😉

      • Nós nos sentimos honrados pelas citações.
        E olha Elisa, em breve teremos novidades de estrutura nas nossas lojas, e acho que todo mundo vai gostar!
        Aproveito pra disponibilizar, caso achares interessante, o espaço da revista FarmaMellitus para alguma coluna/receita ou artigo relacionado a diabetes. Queremos pessoas interessadas no assunto, e que saibam escrever bem! Claro que tu estás dentro desse público.

        Um doce dia pra ti!!

        Pedro
        Mkt FarmaMellitus

  3. Nossa, eu adoraria escrever algo para a revista… amei a idéia!!!!! Obrigada mais uma vez e vamos nos falando para quem sabe criarmos uma coluna sobre algo relacionado à psicologia e diabete…seria interessante! 🙂

  4. Pra mim é muito dificil falar escrever algo em cima de um texto de Rubem Alves, justamente porque sinto os textos dele, muito mais do que leio… É como se ele conseguisse tocar em nossos corações com suas palavras e leva-nos a profundas reflexões…

    Mas enfim, vou tentar dizer ao menos o que sinto com esse texto.

    Trabalhar como terapeuta é visto em muito momentos apenas como possuir um bom ouvido. Uma visão pequena e sem proposito… De que adianta bons ouvidos se não soubermos o que fazer com o que neles captamos? De que adianta desenvolver a “escutatória”, senão aprendermos a desenvolver também o sentir, o deixar ecoar dentro de nós aquilo que ouvimos, e claro, a oratoria?

    Bem, que possamos então aprender a utilizar melhor o que ouvimos e como ouvimos…

    Obrigada pela reflexão… sem duvida vou continuar pensando nisso por toda a semana…rs

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