Aceitação e cuidados: devaneios de uma mente preocupada!

Após alguns dias com o controle glicêmico mais complicado, precisando comer somente saladas e frutas para que tudo ficasse “normal”, aumentando doses de insulina basal e rápida, me “bateu” aquele momento:  “mas que droga esta diabetes mesmo, melhor seria se eu não a tivesse”. E aí com este simples pensamento , os demais começaram a vir: “porque comigo?” , ” não merecia este trabalho todo”, “ ninguém entende o quanto é difícil”, e seus afins.

É, altos e baixos de quem convive com uma doença crônica.

 E é muito verdadeiro o sentimento de que, mesmo sabendo muito da doença, quem não VIVE ela no próprio corpo, não SABE o que passamos. Pode até fazer uma ideia mas jamais saberá ao certo, o quanto cansa, o quanto é doloroso em muitos momentos, o quanto é chato e o quanto dá trabalho!

Sim, ter diabetes dá muito trabalho. Trabalho de contar carboidratos, calcular doses, trocar agulhas, cânulas, furar várias vezes por dia a barriga, perna, braços e os dedos, ter hora para comer ( sim, ter diabetes exige rotina). Ter vontade de comer e em muitos momentos, não poder ( sim podemos comer tudo, mas com cautela, com discernimento, e nesta fase gestacional, em muitos momentos não dá para comer mesmo o que se tem vontade), etc, etc.

Incomoda sair para comer fora e os outros ficarem olhando como se você fosse um “E.T”, afinal, está tirando sangue do dedo, está espetando uma agulha na barriga, e não foram poucas às vezes, em que vi pessoas chamando a atenção de outras para “olharem” (e comentarem, claro), como se fosse algo de “outro mundo” injetar insulina. E sim, isso chateia e muito! Fora as tentativas, muitas vezes por carinho, de controlar aquilo que comemos e a hora que comemos: “mas você pode comer isso?”, “Olha, cuidado, ACHO que você não deve comer aquilo”… Sabemos bem que é tentativa de cuidado por parte de quem está perto e sabe da condição de saúde, mas já parou para pensar se fosse com você?!

Cada qual sabe de seu próprio organismo, de suas necessidades, vontades, e limitações, não é mesmo?! 

Agora, você diabético deve estar concordando comigo em tudo isso. Mas já parou também, para se questionar se realmente está cuidando de seu organismo de uma forma a não ter sequelas mais para frente?

Após passar por estes momentos de “revolta”, me coloquei também no lugar de quem está ao nosso lado… Nossos pais, namorados, maridos, filhos, amigos… aqueles que verdadeiramente querem nosso bem. Não deve ser fácil, ver alguém que amamos em uma tentativa de “se matar”. E sim, se você não se cuida, o diabetes pode gerar complicações graves, e destas complicações, o óbito ser uma possibilidade.

Duro, cruel?! Talvez possa ser, mas é este o sentimento de ver quem amamos, se destruindo, seja a forma que for esta destruição (drogas, irresponsabilidade, comer demais, beber demais, não se cuidar…).

Não é fácil conviver com uma doença crônica, que exigirá cuidados pelo resto de nossas vidas, cuidados que nós vamos ter conosco (nem a mãe, nem o pai, nem o amigo, nem o marido, nós!); mas, também não é fácil, saber que por causa de negligência em cuidados hoje, possivelmente alguém terá que cuidar de nós o resto da vida, dependeremos de alguém para este cuidado e, portanto, nossa liberdade também será cerceada, e continuaremos com alguém que nos precisará “controlar”.

Não é fácil aceitar a condição de limitação, e não precisamos o tempo todo, achar bom, estar bem… Precisamos o tempo TODO cuidar de nosso organismo, mesmo quando estivermos saturados e com vontade de desistir. Precisamos falar desta saturação, para que ela não se exceda e acabe causando problemas maiores, precisamos confiar que na maior parte do tempo, quem está ao nosso lado está verdadeiramente querendo ajudar, e só nos deixará “livres” quando puder confiar que sabemos mesmo nos cuidar e pedir ajuda quando necessitarmos.

 E sim, escrevo muito disso para os adolescentes que vivem este momento. Adolescentes como eu fui um dia, com diabetes, com limitações, com vergonha, com minhas revoltas… adolescente que aprendeu a se cuidar, e que hoje, como mulher tem a oportunidade de gerar vidas, vidas saudáveis, com gestações tranquilas!

Aos que me leem… hoje fui tocada a escrever por saber de adolescentes que não poderão  ter tanta tranquilidade na vida adulta, pois já tem sequelas desta doença que não perdoa aqueles que não sabem se cuidar. Fui tocada a colocar meu coração aqui, como pessoa, como mãe, como mulher, como diabética. 

Vivo hoje uma fase linda da vida, gerar uma vida em meu ventre. E a vivo, por ter aceitado a minha limitação, e usado ela para achar novas possibilidades e não como pedra no meio do caminho. Vivo este momento, por ter aceitado que esta é a forma mais saudável de se viver:  comer equilibradamente, fazer exercícios, e cuidar do meu maior patrimônio que temos, nosso corpo, nós mesmo!

 Cuidando de uma forma zelosa, é possível sim “passar” dos limites às vezes, se dar ao privilégio de um “petit gateau“, de um espumante, de um rodízio de pizzas…  Então, fica meu pedido, de que, se não for possível ainda aceitar tuas limitações, converse com alguém, desabafe, coloque para fora… coloque tudo para fora, a revolta, o choro, a raiva , a tristeza , tudo…  E tente, por favor, tente olhar de outra forma, ver as coisas positivas e as possibilidades de vida “normal”… o ruim sempre fará parte, mas ele só prevalecerá, se deixarmos tomar conta…caso contrário, podemos usar a dificuldade como alicerce fundamental de uma vida que dá gosto de ser vivida 😉

 

Beijos

Elisa

 

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4 pensamentos sobre “Aceitação e cuidados: devaneios de uma mente preocupada!

  1. Elisa querida!!!
    Senti ( sentimos) saudades de ler seus textos….
    Eu, médica, DM 1 com diagnósico aos 26 anos ( agora tenho 33), estava recordando no seu blog os seus textos de quando estava grávida do teu príncipe….por quê? Por que há 3 meses decidi que também quero ser mãe!!!
    Graças aos cuiados prévios ( exercícios e alimentação) estou muito bem… Minha HbA1c é 5,7…
    OBRIGADA por voltar a escrever….TE DESEJO TODA SAÚDE E FELICIDADE DO MUNDO!!!
    Até o próximo texto!!
    Beijos,
    Lilian

  2. Sou DM1 há 27 anos e tenho 2 filhos lindos Hoje estive no médico tentando explicar que meu empenho em substituir meu pâncrea. A rotina depois de tanto tempo com a doença faz com que desprezemos conselhos úteis. Prometi mais dedicação. Por que? Porque quero viver mais e melhor por todo o tempo que Deus assim permitir. E para isso…vou focar no cuidado e não desistir…JAMAIS. Bom ler seu texto!!!

  3. Olá Elisa! Adoro ler seus textos, também me sinto assim muitas vezes, mas sei o quanto é importante controlar e fazer o possível para estar bem. A diabetes as vzes nos deixa deprimidos e como você disse, só quem é diabético para saber o que passamos. Parabéns pelos seus bebês e que tudo ocorra bem para você. Beijos

  4. Engraçado, você traduziu muito bem o que eu sinto na hora da revolta, mas faço o mesmo pensamento que o seu: não tenho como desistir agora, que a glicose está tão zoneada quanto minha vida, meu cabelo e meu quarto. Preciso ir atrás, e ás vezes, demora pra vir o resultado, mas quando vem, quase sambo de tanta alegria. Bom que você fala isso, e sei como é saber de adolescentes que já tem sequelas, dá uma vontade de pegar no colo e falar ‘ se cuida, por favor’, não é mesmo?

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